Classical Enthusiast

Músicas Clássicas

Mês: março 2017

A Música Clássica no Cinema

Conheça um Pouco Sobre a Música Clássica no Cinema

As Trilhas sonoras começam a surgir com propósitos muito bem definidos, de modo que seria exigir muito, que elas sejam uma grande música quando só precisam ser apenas memoráveis com umas imagens que acompanham.

Algumas parcerias entre os diretores e os compositores – como Spielberg e John Williams, Kieslowski e o Preisner, Leone e Morricone, dentre muitos outros – atestam a centralidade de composição para um ótimo filme, mas é bastante difícil que essas trilhas sonoras tenham uma grande valia fora dos filmes.

Me lembro especialmente dos excelentes trabalhos de Bernard Herrmann para os filmes de Hitchcock e que, afinal, não são nada atrativos quando são isolados na sala de concerto.

E quando os diretores preferem aquela música clássica surge a dificuldade adicional de poder conciliar uma composição previamente por escrito com a sua intenção no filme – e daí somos apenas apresentados a algumas associações por algumas vezes felizes, mas que tendem a ser bem óbvias, como no uso da “Cavalgada das Valquírias” e na seqüência do bombardeio de napalm visto em Apocalipse Now (1979).

Por ora, é interessante aqui o uso de algumas músicas que por vez conciliaram bem com a imagem cinematográfica.

Escolhi aqui um filme que, creio, foram significativamente bem favorecidos pela trilha que os seus diretores escolheram e, com o passar de alguns anos, se tornaram simplesmente impensáveis sem elas. Nesse, vemos que a música não acrescentou algo somente a uma cena em particular, mas sim, foi necessária o mesmo para dar o sentido a todo o filme.

2001: Uma Odisseia no Espaço de (1968)

Veja o filme de Stanley Kubrick e o grande poema sinfônico como “Assim falou Zaratustra”, de 1896, de Richard Strauss. Este foi o primeiro filme com a trilha inteiramente formada por algumas composições já escritas, não existindo qualquer música original. Ocorreu que durante a criação do filme, as obras de Ligeti, Johann Strauss e a de Richard Strauss foram usadas como um tipo de fundo musical provisório e útil tanto para a criação de Kubrick quanto para inspirar o Alex North, que foi o compositor da trilha definitiva.

 

E agora todo o monólito se lembra Richard Strauss

Em 2001 encontramos uma coerência entre a narrativa cinematográfica, a música e a filosofia muito apropriada: Nietzsche sempre se manifestou a vontade de ver em algum dia o seu poema transformado em música – no que chegou bem perto quando inspirou algumas outras composições, como a  “A Mass of Life”, de Frederick Delius, e também a “Terceira Sinfonia” de Mahler.

Porém, somente o Richard Strauss se propôs a dar uma grande representação musical plena de algumas idéias de Zaratustra, o profeta criado pelo filósofo alemão, e que, em sua passagem mais famosa, o homem é denominado um ser que reside entre o simples primata e o além do homem – Übermensch.

Zaratustra anuncia para os homens a possibilidade de saltar a sua condição, que depois lhe parecerá tão ignóbil quanto aos símios que nos parecem atualmente – e claro, isso com certeza não tem nada a ver com a evolução física.

E a música de Strauss não só ilustra esse passo como o conecta com o pensamento de Nietzsche – seja lá o que viermos a ser depois da transvalorização de todos os valores que Zaratustra do filósofo ansiava, será incompreensível em nosso atual estágio.

 

Trailler do Filme Uma Odisséia no Espaço 1968:

 

A música e a Experiência do Infinito (“Feldeinsamkeit”, de Brahms)

Em Euterpe já conhecemos exemplos em que tanto que a música nos ensina a ler a poesia como a poesia ensina nos a ouvir música – lembramos do assustador doppelgänger que de fato rouba o lugar de um amante gorado e de alegria indizível da descoberta de uma gravidez por um casal.

Hoje vamos ver como a música pode nos ensinar a enxergar na descrição de um simples poema de singeleza quase inócua simplesmente O SENTIDO QUE TEM A VIDA.

A solidão e a natureza

Caspar David Friedrich: em  “O Viajante sobre o Mar de Névoa” ( de 1818)
Há duas coisas em que Johannes Brahms (entre 1833 a 1897) amava profundamente que é: a solidão (F-A-F: Frei aber froh – livre mas feliz) – e a natureza.

A imagem de um homem solitário que encontra o refúgio na natureza, a qual ele abriga como ninguém os seus devaneios e, no meio à cultura artificial de homens, restitui-lhe algo de suas raízes primevas, reverberou muito que fortemente no ideal do artista do século XIX, e que de certa forma até hoje ele tem o seu apelo.

Mas também houve os sentimentalismos e os exageros por parte da estética romântica – ou seja, também haviam artistas deslumbrando-se mais com aquela ideia de ser profundo ao se ver um solitário em meio à natureza ai invés da solidão e a natureza por si (todo “brega”, afinal, isto é um sentimento de segunda mão).

O Poema

Veja rapidamente o seguinte pequeno poema sem título de Hermann Allmers (1821-1902), que publicado em 1860 (Traduzido):
Repouso tranquilo na alta grama verde
E dirijo largamente meu olhar para o alto,
Pelos grilos rodeado a enxamearem sem cessar,
Pelo céu azul magnífico envolto.
As belas nuvens brancas vagam à deriva
Pelo profundo azul, tal como belos sonhos tranquilos.
Sinto-me como se estivesse há muito já morto
E vagasse feliz com elas pelos espaços eternos.

Em uma primeira vista é bonito, mas também de uma passividade meio bocejante. Aprendemos em esperar um tipo de dialética transformadora de arte, e de placidez por placidez costuma a ser associada a paisagens de calendário ou até mesmo a músicas de elevador. Adjetivos banais que são repetidos com apelo barato também não ajudam, como um céu azul “maravilhoso” , as “belas”  nuvens que vagam, os “belos” sonhos tranquilos…

Mas aquela imagem da solidão e da natureza ainda sim está lá, e para Brahms, que verdadeiramente vivenciava e amava, elas simplesmente bastaram para que ele nos mostrasse, e através da música, uma grande experiência de alguma forma bem mais concreta de ambas, e ainda que usando sempre as mesmas palavras.

 

 

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