A música e a Experiência do Infinito

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Em Euterpe já conhecemos exemplos em que tanto que a música nos ensina a ler a poesia como a poesia ensina nos a ouvir música – lembramos do assustador doppelgänger que de fato rouba o lugar de um amante gorado e de alegria indizível da descoberta de uma gravidez por um casal.

Hoje vamos ver como a música pode nos ensinar a enxergar na descrição de um simples poema de singeleza quase inócua simplesmente O SENTIDO QUE TEM A VIDA.

A solidão e a natureza

Caspar David Friedrich: em  “O Viajante sobre o Mar de Névoa” ( de 1818)
Há duas coisas em que Johannes Brahms (entre 1833 a 1897) amava profundamente que é: a solidão (F-A-F: Frei aber froh – livre mas feliz) – e a natureza.

A imagem de um homem solitário que encontra o refúgio na natureza, a qual ele abriga como ninguém os seus devaneios e, no meio à cultura artificial de homens, restitui-lhe algo de suas raízes primevas, reverberou muito que fortemente no ideal do artista do século XIX, e que de certa forma até hoje ele tem o seu apelo.

Mas também houve os sentimentalismos e os exageros por parte da estética romântica – ou seja, também haviam artistas deslumbrando-se mais com aquela ideia de ser profundo ao se ver um solitário em meio à natureza ai invés da solidão e a natureza por si (todo “brega”, afinal, isto é um sentimento de segunda mão).

O Poema

Veja rapidamente o seguinte pequeno poema sem título de Hermann Allmers (1821-1902), que publicado em 1860 (Traduzido):
Repouso tranquilo na alta grama verde
E dirijo largamente meu olhar para o alto,
Pelos grilos rodeado a enxamearem sem cessar,
Pelo céu azul magnífico envolto.
As belas nuvens brancas vagam à deriva
Pelo profundo azul, tal como belos sonhos tranquilos.
Sinto-me como se estivesse há muito já morto
E vagasse feliz com elas pelos espaços eternos.

Em uma primeira vista é bonito, mas também de uma passividade meio bocejante. Aprendemos em esperar um tipo de dialética transformadora de arte, e de placidez por placidez costuma a ser associada a paisagens de calendário ou até mesmo a músicas de elevador. Adjetivos banais que são repetidos com apelo barato também não ajudam, como um céu azul “maravilhoso” , as “belas”  nuvens que vagam, os “belos” sonhos tranquilos…

Mas aquela imagem da solidão e da natureza ainda sim está lá, e para Brahms, que verdadeiramente vivenciava e amava, elas simplesmente bastaram para que ele nos mostrasse, e através da música, uma grande experiência de alguma forma bem mais concreta de ambas, e ainda que usando sempre as mesmas palavras.

 

 

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